sábado, 23 de maio de 2009

Quinze minutos passados do início do almoço, a orquestra afasta-se do clímax e ouvem-se já garfos e facas, quando usadas, a raspar o fundo dos pratos. “Estou que nem uma vaca!”. A anfitriã não conteve uma risada bem recheada de arroz, batatas e frango assados. O discurso da velha quando comia não se afastava do facto de comer muito pouco e ter muito pouco apetite. “Mais vinho?”; a bebida da mesa é da responsabilidade do chefe da casa. “Ai da pinga bem gosto! Mas bebo pouco, em minha casa nem tenho…”. Ainda descontente com as afirmações, feitas para arrasar de empatia o público, reforça “Estou cheiinha até aos olhos!”. “Ah carago! Até aos olhos não estás!”. O aborrecimento que a velha causava à outra velha não se conteve, rasgou a boca, dentada só em baixo, e uma boa dose de bolo alimentar. Este comentário mereceu uma descrição sentida de todo o programa alimentar diário da primeira velha, acabando em “…lá para as seis, sete, ceio, uma sopinha ou pão, e às oito deito-me.”. “Tu só não comes porque não te apetece fazê-lo”.

almoço familiar de domingo, 13 de Janeiro de 2008

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Capítulo I - Hora de Ponta

Nos Aliados, às oito e vinte da manhã de qualquer dia útil, emergem da estação de metro pessoas de vários tipos, e muitas. Neste dia, o trânsito nas saídas do apeadeiro dos Aliados foi semelhante ao de todos os outros. Com as devidas variações que os períodos de férias, greves, feriados, religiosos ou não – uns e outros responsáveis pelo impressionante aumento dos “ausente por doença” ou pelos mais emancipados “motivos pessoais”, quando se estiram ironicamente antes ou depois de uma possível ponte sobre rios de trabalho -, imprimem neste trânsito matinal, Marias, se não do Bulhão, do Banco Central, e Maneis, da agência de seguros e do café da esquina, muitos destes e de outros nomes, dados por estes e por outros, piscam os olhos à claridade matinal, ampliada por nuvens brancas, aos chuviscos persistentes, à visão da grande avenida.